terça-feira, 6 de novembro de 2012

UM CONTO DE DOR, AMOR E ALEGRIA: Reflexões de um médico em formação

“A tenda está posta, a cadeira está vazia, venha contar o seu conto de amor, dor e alegria”... É com essa frase que somos convidados a contar a nossa história na Tenda do Conto, a história escondida atrás do objeto que trouxemos para a reunião.

A Tenda, que tem por objetivo prover o autoconhecimento, é um instrumento desenvolvido por profissionais de saúde de Natal. A metodologia é simples: um círculo (todos os bons momentos de aprendizado se dão em círculos), uma cadeira confortável e uma mesa com os objetos trazidos pelos participantes.

Passei uma semana matutando: que objeto levaria para o encontro? que história compartilhar? Eis o que vamos começar a contar a você, amigo leitor...

Meu objeto é o livro A morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstoi. Existe uma dedicatória na primeira página deste livro, de alguém que não conheço: “Ao abençoado estudante de medicina, a minha contribuição para a sua formação humanística”. De fato, esse livro mudou a minha vida.

Duas semanas antes de participar da tenda do conto, vinha passando visitas acadêmicas em um hospital de nossa capital. O paciente já vinha há meses internado, sem diagnóstico preciso e sem melhora do estado geral. Enquanto estudante responsável pelo leito, comecei a propor mudanças junto ao professor, às vezes acatadas, outras vezes não. Muitos dias perdi meu horário de almoço lendo e relendo o prontuário, os exames, os livros. Os resultados, na maioria das vezes, eram frustros.

No começo das visitas percebi que o paciente não me dava muito crédito, afinal eu era mais um estudante que o medicaria por duas semanas e que iria embora (admito que pensei a mesma coisa). Mas a vida nos prega peças, e algumas daquelas pequenas mudanças começaram a surtir efeito. Não descobri a doença que o acometia, mas o paciente passou a sentir menos cansaço, menos vômitos, menos dor abdominal. Até que um dia ele foi capaz de tomar banho de chuveiro e pentear-se sozinho (uma coisa banal no nosso dia-a-dia, mas que deu um novo semblante ao rosto do meu amigo paciente).


Foi justamente nesse dia que tive que me despedir do paciente, o estágio acabara, e no outro dia já estaria em outro hospital da cidade. O paciente respirou fundo e falou, com uma sinceridade que vi poucas vezes antes na vida, que não queria que eu fosse embora, que estava se sentindo melhor. E com os olhos marejados disse: “Doutor, não vá embora. Sabe por quê? Porque eu vou sentir saudades”.
Na mesma hora lembrei-me de uma frase citada pelo oncologista Rogério Brandão: “Saudade é o amor que fica!”, e entendi o seu real sentido. O choro foi inevitável.

O que tem a ver o livro com minha história? A sinceridade. Aprendi , há três anos, com Tolstoi que o mais importante para o paciente é a verdade, mesmo que seja dura, é o que queremos ouvir. E foi assim que agi durante aquelas duas semanas.

O poeta Mário Quintana nos diz que “a vida é breve, e o amor mais breve ainda...”. Ainda bem que existe Saudade!

E você, caro leitor, qual o seu conto de amor, dor e alegria?

Bruno Pessoa
Estudante do 11° período de Medicina da UnP  

domingo, 4 de novembro de 2012

Carta a Diógenes de Abdera


Meu estimado filósofo,
Veja só o que me aconteceu, outro dia. Ao querer imitá-lo - saindo em plena luz do meio dia com uma lanterna, a procura de um homem honesto-, sabe o que me aconteceu?! Fui assaltado: levaram a minha lanterna!... Tudo bem eu sei que foi um típico caso de ladrão que rouba ladrão, afinal não sou mesmo um “ladrão de citações”?
Pois é, meu caro Diógenes, feliz era você, que mesmo convivendo com uma sociedade corrupta, ainda podia sair nas ruas da Grécia antiga, e não ser assaltado. Podia morar num barril, apenas com um alforje, um bastão e uma tigela, e ninguém ousava tirá-las de você. Hoje, com a modernidade, no mundo das conexões rápidas, dos chips, das máquinas, da robótica, o chique é ser desonesto em todos os lugares... Outro dia, estava em São Paulo, num encontro de medicina e a noite sai para jantar com um amigo. A comida que sobrou, resolvemos colocar numa quentinha e entregar ao primeiro mendigo que encontrássemos. Ao descermos do taxi, havia um deitado, dormindo, debaixo de uma marquise. Coloquei a comida ao seu lado, na esperança de que ao acordar, ele teria algo para comer. Aí um pipoqueiro que estava próximo me alertou: “Senhor, não deixe ai não, pois vão roubá-lo!”.
Foi impossível não me lembrar do seu companheiro de profissão, o filósofo Jean-Yves Leloup e o seu comovente relato, no magnífico livro “O absurdo e a graça”, que conta a vida dele perambulando pelas ruas da França, a procura de paz: “Aconteceu que uma noite não encontrei mais minha mochila, devem tê-la tirado de mim, em um segundo, enquanto eu cochilava. Isso para mim foi um sofrimento real, eu me havia identificado tanto com aqueles pedaços de frases que sem eles minha vida não tinha mais sentido. Não chorava pelos meus documentos de identidade; chorava pelos meus poemas, chorava também pela miséria, pela injustiça... como é que um pobre pode roubar outro pobre? Não havia um tostão em minha mochila, lá só estava o meu tesouro, o brilho de duas ou três palav ras que, quando juntas, produzem um efeito de música ou de sentido”.
Meu caro Diógenes, toda vez que leio esse relato, confesso que meus olhos ficam marejados de lágrimas. E logo me vem à mente: “Por que o mal existe?”. Difícil essa pergunta, não?! São Tomaz de Aquino talvez tentando respondê-la, dizia: “Se o mal existe, Deus existe”. E eu não tenho dúvida que todas as pessoas nascem boas, pois como ensinou, recentemente, o grande professor de pediatria, Dr. Heriberto Bezerra: “O jovem é puro... se deteriora no caminhar da vida, às vezes por necessidade ou por fraqueza; ou pelas duas coisas!”.
E quando eu falo em homem desonesto, meu caro Diógenes, nem estou mais só falando daqueles que roubam dinheiro, pois como disse no inicio desta carta: o chique agora é ser desonesto em todos os lugares (até nos tribunais éticos, a corrupção é generalizada)... Falo daqueles que roubam nossos sonhos, que destroem as velhas amizades, que são desonestos com a sua própria consciência.
Sócrates dizia que uma vida não reflexiva não valia a pena ser vivida. Afinal, temos dentro de nós o maior de todos os juízes - aquele que trabalha dentro de um tribunal, onde não há como recorrer, nem fazer habeas corpus preventivo, nem delação premiada... Um tribunal cuja sentença é inapelável: a nossa consciência, que nada mais é do que “uma espécie de entidade invisível, que possui vida própria e que independe de nossa razão. É a voz secreta da alma, que habita em nosso interior e que nos orienta para o caminho do bem”.
Então, meu caro Diógenes, não há nada de errado em fazer as seguintes perguntas: “Estou em um caminho de sucesso? Estou em um caminho de santidade? Ou estou em um caminho de autodestruição?”. É fundamental responder a essas questões. Qualquer caminho para o índio Don Juan, do escritor Carlos Castaneda, é apenas um caminho. “E não constitui insulto algum – para si mesmo ou para os outros – abandoná-lo. Quando assim ordena o coração (...) olhe cada caminho com cuidado e atenção. Tente-o tantas vezes quantas julgar necessárias... Então, faça a si mesmo e apenas a si mesmo uma pergunta: possui esse caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma”...
Meu caro Diógenes, como tenho utilizado o meu coração nestes dias. Fiz - com um profissional que se “queixava” de ser médico (nem um robô seria tão frio! Agradeci a Deus ao sair do exame, por saber que ele não tinha sido meu aluno: menos uma culpa para carregar nas costas)-, até um teste de esforço para avaliá-lo. Tudo isso para poder utilizar esse órgão - que bate muitas vezes descompassado pelas incompreensões, pelas ingratidões, pelas críticas muitas vezes infundadas e motivadas sei lá porque, etc. etc. -, de forma a julgar melhor e perdoar: “Pai, eles não sabem o que fazem!”.
Tenho utilizado esse meu miocárdio, para ver melhor aqueles que um dia idealizei como exemplos de ética e retidão moral e que olhando um pouco mais de perto, não passam daquela imagem sonhada por Nabucodonosor, com os enormes pés de barro, e que basta jogar um pouco de água para eles se transformarem num mar de lama... é preciso olhá-los com o coração, para entendê-los e poder colocar em pratica a caridade, pois sem ela não há salvação!
Portanto, permita-me terminar essa carta, meu caro Diógenes, com a seguinte oração: “Devemos igualmente amar nossos inimigos. Se ajudei a alguém o melhor que pude e se essa pessoa me ofende da maneira mais ignóbil, possa eu olhar essas pessoas como meus maiores mestres, pois eles nos permitem testar nossa força, nossa tolerância, nosso respeito aos outros... Compaixão e felicidade é a mesma coisa!”.
Um forte abraço! Até um dia, meu caro Diógenes!
Francisco Edilson Leite Pinto Junior – Professor, médico e escritor.

sábado, 27 de outubro de 2012

Escolhas

Reunião - "Escolhas" - 26.10.2012
Filme: "Mr Nobody" (Sr. Ninguém)
"Enquanto você não escolher, tudo permanecerá possível"

Quem escolheu "não ir" para a reunião pode sentir o gostinho da discussão que tivemos ontem. O trailer abaixo dá uma pitadinha desse fantástico e "angustiante" filme. 




Saímos cheios de interrogaçõs, mas nossa vida é assim mesmo. Sempre que estamos em dúvidas sobre que direção tomar devemos nos fazer uma pergunta: "Há nesse caminho um coração?"

"Sempre que houver alternativas, tenha cuidado. Não opte pelo conveniente, pelo confortável, pelo respeitável, pelo socialmente aceitável, pelo honroso.
Opte pelo que faz o seu coração vibrar. Opte pelo que gostaria de fazer, apesar de todas as consequências." 
Osho

Para que possamos ruminar nossas dúvidas durante o final de semana (ou durante o resto da vida), gostaria de compartilhar esse poema de Robert Frost. Eis a sua escolha:

"Duas estradas separavam-se num bosque amarelo,
que pena não poder seguir por ambas numa só viagem:
muito tempo fiquei mirando uma até onde enxergava,
quando se perdia entre os arbustos;
depois tomei a outra, igualmente bela e que teria talvez maior apelo,
pois era relvada e fora de uso; embora, na verdade,
o trânsito as tivesse gasto quase o mesmo,
e nessa manhã nas duas houvesse folhas que os passos não enegreceram.
Oh, reservei a primeira para outro dia!
Mas sabia como caminhos sucedem a caminhos
e duvidava se alguma vez lá voltaria.
É com um suspiro que agora conto isto.
Tanto tempo já passado:
Duas estradas separavam-se num bosque e eu
Eu segui pela menos viajada
E isso fez a diferença toda."
 Robert Frost

"Ciência e Caridade"

 "A caridade chega onde a justiça é incapaz de chegar"Amartya Sen

Ação - 8ª Feira da Alegria
21.10.2012 

O grupo AMARTE foi convidado a participar como voluntário da 8ª Feira da Alegria, um evento beneficiante prom
ovido pelas Sociedades Espíritas Francisco de Assis (SEFA).

No evento realizamos atendimentos de prevenção em saúde, com ênfase em fatores de risco cardiovascular, tabagismo, sedentarismo e câncer de mama.

Os alunos do 2º ano de faculdade que participaram tiveram um maior contato com os usuários, realizando entrevista clínica e exame físico. Para alguns, foi a primeira oportunidade de realizar o exame clínico das mamas.

Um evento muito bem organizado e com uma grande abrangência. Parabéns ao realizadores e aos voluntários.

Cirandas, pinturas e outras alegrias

Ação - Dia das Crianças do NAM
20.10.2012



Muitos dos voluntários do Núcleo de Amparo ao Menor (NAM), também são membros do grupo AMARTE. No sábado (20), foi realizado o dia das crianças do projeto.

O que vimos naquele dia foram muitas brincadeiras, interação com as crianças e, acima de tudo, muito amor. Difícil ver alunos com tamanha desenvoltura na comunicação, tomada de decisões, liderança... e foi isso o que os voluntários (a maioria do 2º ano do curso médico) desenvolveram durante aquele dia.

Estas característica são muito difíceis de serem desenvolvidas dentro dos bancos da Universidade, mas são pré requisitos presentes nas Diretrizes Curriculares Nacional: "o médico egresso deve desenvolver, além da assistência, as competências de Liderança e Comunicação". E foi isso o que vimos nos voluntários durante a ação.

Parabéns a todos.

Obrigado ao NAM e ao Professor Ricardo Cobucci pelo convite.












segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Doar é da sua conta!



Você sabe como ajudar o Hospital Varela Santiago através da conta da CAERN?
Acesse o site: www.hospitalvarelasantiago.org.br  / na página inicial, na barra à esquerda, clique no link "campanhas". Leia a solicitação de adesão e preencha o cadastro. No campo "Valor mensal" coloque a quantia que você deseja contribuir, colocando em "Quantidade de meses" a duração da sua doação.

Os alunos do grupo AMARTE  são gratos aos ensinamentos recebidos nesta instituição, e este vídeo é uma pequena retribuição ao hospital. 

domingo, 15 de julho de 2012

Um dia para ser criança - 12 de outubro de 2011


Os alunos do projeto AMARTE realizaram, na enfermaria do Giselda Trigueiro, o dia das crianças sob a forma de uma ação educativa. Utilizando a arte e a educação de uma forma lúdica, valorizamos as crianças nesta data marco, levando o amor através do cuidado e da atenção que muitas vezes lhes são negados.


Buscando orientar as crianças sobre noções de higiene bucal, promovemos a peça "A fada do Dente", liderados pela estudante de Odontologia Cláudia Rangel. Distribuímos ainda kits com escova, creme e fio dental, para cada de criança e, após um lanche preparado pelos voluntários, realizamos a escovação supervisionada das crianças.



Como diria Karl Mannheim: “O que se faz agora com as crianças é o que elas farão depois com a sociedade.”. Pensando nisso, buscamos uma forma de trazer a felicidade em um dia tão especial. O hospital em que foi realizada a ação recebe crianças com doenças infectocontagiosas, que por si só, já carregam o mártir do preconceito e da negligência. Por isso fomos além, levamos Arte às crianças internadas: cada criança pintou em tela todos os sentimentos em relação à  internação, à sua doença.



O resultado mais significativos  ficam no coração de cada estudante que promoveu a ação e na alegria das  crianças. Cada sorriso, cada olho que brilhava de tanta felicidade foi o suficiente para despertar a criança que existe em cada um de nós, e acima de tudo, foi o bastante para potencializar o sonho de salvar vidas, nem que seja com o simples gesto de fazer uma criança voltar a sorrir.  

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A Medicina e O Cangaço

Nesta quarta feira (17) o Sindicato dos Médicos do RN (sinmed) traz a segunda edição do Sinmed Cultural. Na palestra de hoje o Dr Iaperi Araújo fala sobre "O tempo dos cangaceiros".

O evento ocorre no auditório do Sinmed às 19h30.

Leia mais


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Expandindo o Amor

Para o AMARTE está foi uma semana muito intensa. Tivemos a satisfação em ter participado do I Encontro de Medicina e Arte do RN. Como disse o professor Edilson, acreditamos que Apolo esteja em êxtase, afinal a troca de experiências entre as escolas médicas do estado, que desenvolvem belos trabalhos, foi uma oportunidade de crescimento da disciplina no Rio Grande do Norte. Também tivemos a oportunidade de compartilhar a experiência que médicos têm com a arte em suas vidas pessoal e profissional.

Além disso, essa semana continuamos expandindo o amor! O grupo concedeu entrevista a jornal matutino de nossa cidade o que possibilitou o acesso a divulgação de nossos trabalhos a todo o estado e, quiçá, o mundo.

Clique na imagem e veja a matéria completa


  

terça-feira, 19 de julho de 2011

INFORMARTE II

EXTRA, EXTRA!

Saiu a segunda edição do "Jornal Mais Bonito da Cidade". O INFORMARTE, jornal dos Amigos Médicos Amantes da Arte, vem com o tema amor em suas resenhas, artigos, poemas e entrevistas. Produzido por membros do grupo AMARTE, este jornal é uma extensão de nossas atividades à toda a sociedade. 

Clique aqui para baixar, e veja porque ele é tão bonito.
Você também pode vê-lo na aba INFORMARTE, do nosso blog. 



Perdeu a versão anterior? baixe aqui

sábado, 16 de julho de 2011

POEMED

Você gosta de ler poesia? E que tal escrever uma? Participe do POEMED/RN, concurso de poesias do I Encontro de Medicina e Arte do RN.

O tema é livre e as inscrições estão abertas até o dia 22 de julho. Clique na imagem para detalhes.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

I Encontro de Medicina e Arte do RN

Você já se inscreveu no VI Congresso Médico do RN? Durante o evento ocorrerá o I Encontro de Medicina e Arte do RN (04 de agosto, das 16 as 18h), onde professores e alunos apresentarão as experiências de suas faculdades. Dentro do mesmo evento ocorrerá o I POEMED/RN, concurso de poemas, de tema livre, para médicos e estudantes de medicina.

Clique e visite o site do evento
Desejamos fazer desse encontro um evento que fortaleça a disciplina de Medicina e Arte no Rio Grande do Norte. Contamos com a presença de todos!


Clique aqui e baixe a programação do I Encontro de Medicina e Arte
Visite o site do evento: http://www.congressomedicorn.com.br/index.html

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A ciência da incerteza

“A medicina é a ciência da incerteza e a arte da probabilidade”
Dr. William Osler


O Dr. Bernard Lown - professor emérito de cardiologia da Escola de Saúde Pública de Harvard e médico do Hospital Brigham para Mulheres, em Boston - recebeu em 1985, o prêmio Nobel da Paz em nome da Associação Internacional de Médicos para a Prevenção da Guerra Nuclear, entidade da qual é co-fundador. Em seu livro “A Arte Perdida de Curar”, o Dr Lown faz um relato extremamente corajoso e sincero: “Grandes mestres moldaram minhas ideias sobre a tarefa do médico, destacando-se principalmente o Dr. Samuel Levine... embora ele fosse fadado a ser meu mentor e paradigma profissional, permiti que minha arrogância juveni l me dominasse e concluí que o velho Levine tinha pouco a me oferecer... Mas, logo se tornou difícil evitar admitir a minha inércia como clínico. Era óbvio o contraste existente entre a reação dos doentes do Dr. Levine e a dos confiados aos meus cuidados. Ele, com pequeno conhecimento da fisiopatologia aplicável, receitava poções não testadas e o paciente melhorava, se recobrava e recuperava a saúde, ao passo que eu, repleto dos últimos descobrimentos relatados no New England Journal of Medicine, não conseguia tais resultados”.
            Que interessante! Como pode “Poções não testadas”- não submetidas a teste de significância estatística, aos rigores da ciência-, servirem melhor aos pacientes do que os conceitos verdadeiramente determinados pelo método científico? Será que estes pacientes não sabiam que o que a ciência comprova e publica em revistas científicas é lei, é verdade, e deve ser seguido à risca sobre pena deles não se curarem?
            Ora, é claro que se Pilatos conhecesse o método científico, a pesquisa, os testes t de Student, as regressões logísticas, as análises multivariadas, etc. etc. ele não teria perdido tempo perguntando a Cristo: “Que é verdade?”. A verdade é a ciência e pronto! Ela é tão verdadeira, que até 1980, os médicos tinham certeza de que a principal causa da úlcera péptica gastroduodenal era o estresse. Havia até um aforismo aprendido por todos: “Sem ácido, não há úlcera!”. E inúmeras foram as dissertações de mestrados e teses de doutorados, publicadas em revistas de renome internacional, fazendo a apologia ao tratamento cirúrgico da úlcera péptica. Eu mesmo (que Deus e, principalmente, os me us pacientes me perdoem), durante a minha residência de cirurgia, operei diversos doentes ulcerosos... Mas, um dia, a verdade, cientificamente comprovada e publicada, foi ousadamente questionada por dois médicos australianos, os Drs. Barry Marshall e Robin Warren: “Nada do que se sabe da origem das úlceras é verdade; elas são causadas por uma bactéria, o H. Pylori”. É claro que os dois foram ridicularizados na época; suas palestras e comunicações eram motivos de chacotas e risos. No entanto, do ceticismo inicial – a ponto de nenhuma revista ligada a medicina ter aceitado os seus trabalhos-, hoje, após uma lenta e difícil batalha, tratamos os ulcerosos não mais com cirurgia e sim com anti bióticos.
            Veja caro leitor, como as verdades cientificamente comprovadas na medicina são sólidas... O que ontem era lei, hoje é lixo; o que hoje é ridicularizado, amanhã pode ser lei. Portanto, a pergunta agora não é mais “Que é verdade?”, mas sim, “Quem está com ela, com a verdade?”. Os devoradores de artigos médicos? Os professores universitários assoberbados de conhecimentos, capazes de ler toda a biblioteca de Alexandria, mas incapazes de saber o significado da palavra AMOR? “Os arrogantes que acham que só têm um ponto de vista que vale: o dele?” Quem?! Por favor, se alguém souber quem é o dono da verdade, envie o nome para meu o e-mail (edilsonpinto@uol.com.br), pois adorarei conhecê-lo.
            Afinal, por saber tão pouco - aliás, assim como Sócrates: “Só sei que nada sei!”-, só sei que entre o céu e a terra há mais mistérios do que pode imaginar a nossa vã filosofia, como alertava Shakespeare. Mistérios, que estão além do nosso alcance, da nossa limitada consciência. Mistérios, que não explicam como um doente pode melhorar apenas com um bom dia, com um aperto de mão, com uma música ou livro lido na sua cabeceira. Mistérios, citados no artigo do Dr. Sigwart Ulrich, publicado na revista Science, mostrando que doentes operados de vesícula se recuperavam melhor quando a janela do seu quarto hospitalar abria para um bosque, ao invés daqueles cuja janela dava para um estacionamento... Mistérios!
            Não é à toa, caro leitor, que o julgamento de Hipócrates inicia-se assim: “Juro por Apolo Médico, por Esculápio, por Higéia, por Panacéia e por todos os deuses e deusas, tomando-os como testemunhas...”. Ele sabiamente percebeu que a fé, a crença, é algo tão importante quanto um bisturi ou um quimioterápico poderoso... Por isso que o Dr. Lown, aquele que ganhou o prêmio Nobel da Paz, certa vez disse: “A melhor c ura será aquela que casar a arte com a ciência, quando o corpo e espírito forem examinados juntos”.
Francisco Edilson Leite Pinto Junior
Professor, médico e escritor



terça-feira, 7 de junho de 2011

Sinônimo de amar é sofrer

“Quanto tempo o coração leva prá saber,
Que sinônimo de amar é sofrer...”
Chitãozinho e Chororó

O destino de um homem depende do seu caráter, alertava Heráclito. Afinal, é através do caráter, que fazemos as nossas escolhas; podemos viver na retidão ou podemos vender a nossa alma ao diabo, como fez o Dr. Fausto... Enfim, são as nossas escolhas que irão nos conduzir ao longo da nossa caminhada.

            Dizem que Aquiles, quando jovem, recebeu das Parcas o privilégio de escolher a duração e o resultado da própria vida: poderia viver num palácio, ficar velho e morrer pacificamente, mas nunca seria lembrado; ou poderia ser lembrado para sempre, desde que morresse cedo. Escolheu a segunda alternativa, e parece-me que foi a correta, afinal concordo com Nelson Rodrigues: “Pior do que a morte é o esquecimento!”.
A Ulisses foi dada a oportunidade de conquistar a vida eterna, bastaria que ele aceitasse as oferendas da deusa Calipso. Mas, ele rejeitou uma vida paradisíaca, onde tudo seria previsível e seguro, para se lançar de volta a sua casa e a um futuro “no qual ele pudesse se atirar de corpo e alma”...       
Robert Frost, poeta americano, certa manhã teve que fazer a sua escolha: “É com um suspiro que conto isso, tanto, tanto tempo já passado: Duas estradas separavam-se num bosque e eu – Eu segui pela menos viajada, E isso fez toda a diferença”.
Eu, Edilson Pinto, em 1993, tive que fazer também a minha escolha. Poderia ter ficado no Rio de Janeiro, muito provavelmente trabalhando no INCA (Instituto Nacional de Câncer) ou teria que voltar para o meu Estado, e assumir a vaga de professor na UFRN. Escolhi a segunda alternativa e não me arrependi!
Não tenho dúvida que nesta escolha, teve a enorme influência da minha mãe, professora alguns anos do Atheneu e depois do curso de letras da UFRN. Toda vez que ela falava da sua atividade docente, do seu entusiasmo, do seu carinho e amizade pelos alunos, etc. etc. seus olhos brilhavam e eu sentia uma enorme vontade de ser como ela: um professor.
Lembro-me, hoje, da minha primeira aula. Que tema árido para um iniciante, falar sobre “Choque e as suas repercussões hemodinâmicas”. Foram noites e noites sem dormir. Mas, toda aquela ansiedade terminou quando entrei na sala de aula. Naquele dia, percebi que tinha feito a escolha correta. Escolhi a estrada menos viajada e isso tem feito toda a diferença.
No dia 25 de março de 2011, fiz 18 anos de magistério. Pois bem, caro leitor, “Quem ama nunca sente medo de contar o seu segredo”: Eu amo ser professor! Adoro ensinar. Adoro o contato com os alunos. É como se eles a cada aula realizassem uma transfusão sanguínea em mim, evitando que o meu sangue vire pó... O que eu sou - e o que eu serei-, devo ao fato de ser professor.
Mas, nessa relação de amor, nem tudo são flores. Drummond, na sua eterna simplicidade, descobriu isso de uma forma curiosa: “Atirei um limão n’agua, como faço todo ano. Senti que os peixes diziam: todo amor vive de engano”. O meu grande mestre, professor Ernani Rosado, no dia da minha formatura, proferindo a sua oração para a minha turma, parece que estava me alertando: “O professor universitário, perdido em um emaranhado contínuo de leis, decretos e regulamentos que lhe tolhem, lhe desestimulam e lhe decepcionam, alvo freqüente de incompreensões...”.
Alvo freqüente de incompreensões e, o que pior, de ingratidões. Volto ao Drummond e os seus peixinhos (“Atirei um limão n’agua, foi levado na corrente. Senti que os peixes diziam: Hás de amar eternamente”), para compreender que mesmo amando e sofrendo este é o destino de todo Professor. Afinal, há algo muito maior do que tudo isso: incompreensões e ingratidões. Há a ilusão de que um Professor pode moldar o caráter de um homem e mudar o seu destino...
Então, caro leitor, tem razão o cancioneiro na sua trova: “No aroma de amores, Pode ter espinhos... Quem tem amor na vida, Tem sorte. Quem na fraqueza sabe ser bem mais forte”...

Francisco Edilson Leite Pinto Junior
Professor (UFRN e UnP), médico e escritor

segunda-feira, 30 de maio de 2011

1ª (re)união do grupo

Caríssimos, o grupo AMARTE foi adotado pela LIGA Norte-riograndense Contra o Câncer. A partir de então, nossas reuniões serão mensais no auditório do CECAN - Unidade Nascimento de Castro.

E a primeira reunião ocorre dia 10 de junho, às 17h.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Presente para o A.M.A.R.T.E.

A.M.A.R.T.E.

De um desejo incessante de fazer o bem
De uma imensa vontade de ir mais além
Da alegria que existe em servir ao outro
E da Necessidade de desvendar o verdadeiro tesouro

De um sentimento lindo em nosso coração
De amar a poesia e fazer canção
De transformar a dor em alegria
De deixar suscitar a fantasia

Do amor pelo bem e pela arte
Foi que nasceu o grupo AMARTE
Para unir literatura e música a dedicação
Teatro, filme e animação

Para prestar um serviço com seriedade
Mas sem esquecer a felicidade
Para mostrar a beleza de nossas relações
É que pequenos gestos se tranformam em grandes ações

Para entender que medicina é um ato de caridade
Que o nosso trabalho é também levar amizade
Que o amor quando dividido se mutiplica
E essa verdade além de tudo vivifica

Juliana Nascimento

O grupo AMARTE recebe o poema homônimo como um verdadeiro presente de natal. Assinado por Juliana Nascimento, a qual, morando em Brasília, conheceu nosso trabalho por meio da internet.
Obrigado Juliana pelo lindo poema, acredito que ele é a expressão "figurada" de nosso trabalho "concreto". Nos alegra muito saber que nosso trabalho, mesmo por meio do computador (que "não tem cheiro nem chora"), possa tocar o coração das pessoas.

Post por Bruno Pessoa 

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

OSCE 2010.2

Na última sexta (26) o AMARTE participou mais uma vez da avaliação no modelo de exame clínico estruturado, o OSCE. Convidados pelos professores do PAAB VII - saúde do idoso, encenamos dois modelos de atendimento clínico, sendo um caso de Diabetes Melitus tipo II e outro de Demência de Alzheimer.



O modelo de avaliação de habilidades e competências através de casos simulados é uma tendência que ganha mais força e adeptos dentro da educação médica. A UnP e o AMARTE valorizam essa ferramenta de aprendizado, já tendo realizado três simulações no modelo OSCE (avaliativas) e duas simulações comentadas em sala de aula (Fratura no Idoso e Juri Obstetrícia). O modelo tem se mostrado tão satisfatório que já planejamos simulações para a avaliação dos alunos do internato.

Se você quer conhecer um pouco mais sobre os modelos de avaliações de habilidades por meio de casos simulados, sugerimos a seguinte leitura:
Annals of surgery
Advances

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Juri Simulado - Obstetrícia

Este foi um fim/início de semana cheio para os integrantes do AMARTE. Convidados para simular um caso de atendimento obstetrico para os alunos do 8° e 9° períodos da UnP, aceitamos de pronto a empreitada. Não sabíamos o que nos aguardava...

A simulação seria ao vivo hoje (quarta, 24,) reunimo-nos então na sexta (19), decidimos ensaiar no domingo... nada feito, hospital em reforma, ficamos literalmente, na rua. Tínhamos então 72h para ensaiar e encenar o caso... fizemos melhor, com a coragem (e cara de pau) que nos é particular adaptamos o texto original (caso de discussão ética do CRM-DF) e o tranformamos num roteiro para vídeo... só restava gravar e editar, e só restavam mais 48h. Graças a um grupo introsado e, com certeza, ao amor empenhado conseguimos gravar em tempo recorde (numa manhã) em ambiente recorde (consultório apertado da UDA).

Com a ajuda de muita pizza, risadas, aperreios e noite de sono, a edição saiu em 24h e, em grande estilo. O resultado: mais um vídeo do grupo AMARTE, contribuindo para a educação médica, que trouxe mais uma vez a arte para junto da medicina.
Obrigado amigos que participaram de todas as etapas de mais essa construção!





Consulte aqui: texto CRM-DF e texto adaptação