O Escafandro e A Borboleta não é um filme para claustrofóbicos. Se uma cela solitária de presídio causa uma agonia mesmo em pessoas que não tem medo de lugares fechados, imagine o quanto de sofrimento não gera ser prisioneiro de seu próprio corpo.
É esta a situação em que se encontra Jean-Dominique Bauby, mais especificamente a Síndrome de Locked-In. Para se ter uma idéia, a sensação que o acometia era a de um mergulhador, preso a uma roupa de escafandro, que se vê sem ar e é incapaz de qualquer movimento para se livrar daquela situação. Sua mente, pensamentos, percepção estão perfeitos, mas seu corpo é incapaz de se movimentar, exceto o olho esquerdo, que teve os movimentos preservados.
E é através do olho esquerdo que ele se conecta com o mundo. Uma piscada para “sim”, duas para “não”. Mas isto é insuficiente, ele só responderia às pessoas, não se expressaria. Então, a equipe decide aplicar um sistema de conversação baseado em alfabeto pela freqüência de uso. Sua primeira frase: “Quero morrer”. Para sua fonoaudióloga isso era desrespeitoso, obsceno. Logo ela que estava se esforçando tanto para dar mais autonomia a Jean.
Mas sua imaginação e memória não estavam paralisadas. Jean decide “parar de ter pena de si mesmo”. Lembra-se de um contrato com uma editora e decide publicar o livro assim mesmo. Com certeza seria um exercício de paciência, mas eles tinham a pessoa certa. Sua idéia original para um livro seria uma nova versão para O Conde de Monte Cristo. Mas sua nova situação o leva a escrever o livro homônimo ao filme (e que deu origem a este).
Em um dos trechos do livro ele escreve: “Hoje sinto que minha vida é uma série de frustrações”. No filme, esta frase associa-se a uma seqüência de imagens de geleiras desprendendo-se e desabando. Ora, este conjunto causa uma introspecção em quem assiste ao filme, o que nos leva a pensar que a nossa vida também seria isso. Ora, por que um homem bem sucedido, respeitado jornalista editor da Elle, que tinha o poder de levar para a cama a mulher que desejasse, não via sentido para sua vida? “Nós somos responsáveis pelas pessoas que cativamos”, não é o sucesso profissional ou pessoal que nos garante a felicidade plena, mas a capacidade de mantermos relacionamentos consistentes com as pessoas que nos amam, mas não era isso que Jean valorizava: abandonou a mãe de seus filhos e, de certa forma, a eles também. Ah, o nosso egoísmo!
Mas o nosso protagonista tinha quem olhasse por ele. A primeira a visitá-lo no hospital foi exatamente a ex-mulher, Céline (ou mãe de seus filhos, como ele preferia chamá-la). O segundo a visitá-lo, Pierre Roussein, um amigo a quem cedeu lugar num vôo que acabou sendo seqüestrado. Jean nunca ligou para ele depois que soube que saíra do cativeiro, mesmo assim Pierre estava lá, pronto para compartilhar a dor de ter sua liberdade tomada. Este mesmo senhor, ao final da visita disse algo interessante: “Agarre-se o mais rápido possível ao humano dentro de você e sobreviverá”. Pierre classificava vinhos dentro da minúscula adega que lhe servira como cativeiro (uma evidência científica de que o álcool é capaz de prolongar a vida). Jean tinha a memória e a imaginação de humano dentro de si, isso o motivou a escrever o livro. Será que a visita do velho amigo foi decisiva? O terceiro a visitá-lo foi um amigo que dizia ser péssimo em visitas, mas sempre esteve lá.

Seu meio de “contato com o mundo” era um telefone com viva – vós, por meio do qual se comunicava com as pessoas sempre através de um intermediador (talvez se já existisse a tecnologia 3G esse aparelho não proporcionaria cenas tão emocionantes). Numa dessas cenas, o pai de Bauby (Papinou) tenta manter um diálogo com o filho, mas era impossível para ele conseguir lembrar-se o que queria falar, pois como a o processo de demência corroia-lhe a memória. Aquela conversa foi dramática, emocionando inclusive aqueles que têm ressentimento com seus pais. Ah... a aprovação dos pais! Como disse Bauby: “somos todos crianças. Precisamos de aprovação”.
A conversa com o pai foi dramática, mas a conversa com Inés, sua atual companheira , transcendeu os limites desse adjetivo. O “amor de sua vida” não tivera coragem de visitá-lo um dia sequer, mas a ex-mulher esteve sempre presente. Num desses golpes que o destino costuma dar, a única pessoa que poderia intermediar conversa telefônica entre Inés e Jean era justamente Céline, a ex-mulher. Era inevitável, ela teria que presenciar e participar da conversa que mais evitara na vida. E assim ela escutava as desculpas que Inés dava por não ter coragem de visitar Jean e não queria vê-lo naquele estado, enquanto Céline estava ali o tempo todo. Mesmo assim Bauby esperançoso da misericórdia de seu grande amor diz: “Todo dia eu espero”. Isso partiu o coração de Céline, confesso que o meu também.
Para não estender essa resenha, finalizo lembrando a imagem final do filme: aquelas mesmas geleiras reerguem-se e dão à cena um ar de ordem, beleza e tranqüilidade. Certamente, nossas
vidas não são apenas uma série de frustrações.
É esta a situação em que se encontra Jean-Dominique Bauby, mais especificamente a Síndrome de Locked-In. Para se ter uma idéia, a sensação que o acometia era a de um mergulhador, preso a uma roupa de escafandro, que se vê sem ar e é incapaz de qualquer movimento para se livrar daquela situação. Sua mente, pensamentos, percepção estão perfeitos, mas seu corpo é incapaz de se movimentar, exceto o olho esquerdo, que teve os movimentos preservados.
E é através do olho esquerdo que ele se conecta com o mundo. Uma piscada para “sim”, duas para “não”. Mas isto é insuficiente, ele só responderia às pessoas, não se expressaria. Então, a equipe decide aplicar um sistema de conversação baseado em alfabeto pela freqüência de uso. Sua primeira frase: “Quero morrer”. Para sua fonoaudióloga isso era desrespeitoso, obsceno. Logo ela que estava se esforçando tanto para dar mais autonomia a Jean.
Mas sua imaginação e memória não estavam paralisadas. Jean decide “parar de ter pena de si mesmo”. Lembra-se de um contrato com uma editora e decide publicar o livro assim mesmo. Com certeza seria um exercício de paciência, mas eles tinham a pessoa certa. Sua idéia original para um livro seria uma nova versão para O Conde de Monte Cristo. Mas sua nova situação o leva a escrever o livro homônimo ao filme (e que deu origem a este).
Em um dos trechos do livro ele escreve: “Hoje sinto que minha vida é uma série de frustrações”. No filme, esta frase associa-se a uma seqüência de imagens de geleiras desprendendo-se e desabando. Ora, este conjunto causa uma introspecção em quem assiste ao filme, o que nos leva a pensar que a nossa vida também seria isso. Ora, por que um homem bem sucedido, respeitado jornalista editor da Elle, que tinha o poder de levar para a cama a mulher que desejasse, não via sentido para sua vida? “Nós somos responsáveis pelas pessoas que cativamos”, não é o sucesso profissional ou pessoal que nos garante a felicidade plena, mas a capacidade de mantermos relacionamentos consistentes com as pessoas que nos amam, mas não era isso que Jean valorizava: abandonou a mãe de seus filhos e, de certa forma, a eles também. Ah, o nosso egoísmo!
Mas o nosso protagonista tinha quem olhasse por ele. A primeira a visitá-lo no hospital foi exatamente a ex-mulher, Céline (ou mãe de seus filhos, como ele preferia chamá-la). O segundo a visitá-lo, Pierre Roussein, um amigo a quem cedeu lugar num vôo que acabou sendo seqüestrado. Jean nunca ligou para ele depois que soube que saíra do cativeiro, mesmo assim Pierre estava lá, pronto para compartilhar a dor de ter sua liberdade tomada. Este mesmo senhor, ao final da visita disse algo interessante: “Agarre-se o mais rápido possível ao humano dentro de você e sobreviverá”. Pierre classificava vinhos dentro da minúscula adega que lhe servira como cativeiro (uma evidência científica de que o álcool é capaz de prolongar a vida). Jean tinha a memória e a imaginação de humano dentro de si, isso o motivou a escrever o livro. Será que a visita do velho amigo foi decisiva? O terceiro a visitá-lo foi um amigo que dizia ser péssimo em visitas, mas sempre esteve lá.
Seu meio de “contato com o mundo” era um telefone com viva – vós, por meio do qual se comunicava com as pessoas sempre através de um intermediador (talvez se já existisse a tecnologia 3G esse aparelho não proporcionaria cenas tão emocionantes). Numa dessas cenas, o pai de Bauby (Papinou) tenta manter um diálogo com o filho, mas era impossível para ele conseguir lembrar-se o que queria falar, pois como a o processo de demência corroia-lhe a memória. Aquela conversa foi dramática, emocionando inclusive aqueles que têm ressentimento com seus pais. Ah... a aprovação dos pais! Como disse Bauby: “somos todos crianças. Precisamos de aprovação”.
A conversa com o pai foi dramática, mas a conversa com Inés, sua atual companheira , transcendeu os limites desse adjetivo. O “amor de sua vida” não tivera coragem de visitá-lo um dia sequer, mas a ex-mulher esteve sempre presente. Num desses golpes que o destino costuma dar, a única pessoa que poderia intermediar conversa telefônica entre Inés e Jean era justamente Céline, a ex-mulher. Era inevitável, ela teria que presenciar e participar da conversa que mais evitara na vida. E assim ela escutava as desculpas que Inés dava por não ter coragem de visitar Jean e não queria vê-lo naquele estado, enquanto Céline estava ali o tempo todo. Mesmo assim Bauby esperançoso da misericórdia de seu grande amor diz: “Todo dia eu espero”. Isso partiu o coração de Céline, confesso que o meu também.
Para não estender essa resenha, finalizo lembrando a imagem final do filme: aquelas mesmas geleiras reerguem-se e dão à cena um ar de ordem, beleza e tranqüilidade. Certamente, nossas
vidas não são apenas uma série de frustrações.
Bem, a resenha desse filme resume o que foi a reunião do A.M.A.R.T.E. em 30/12/2008. Não contamos com a presença do professor Edilson, mas tivemos a alegria de somar mais um participante Antônio Helbert (Beto). Estiveram presentes: Ariadne, Bruno Pessoa, Emily, Thiago, Ana Hélbane, Fernando Filho, Sérgio e Antônio Helbert. Ah, vale lembrar que a última reunião do ano foi realizada na casa de Ana Hélbane (a torta estava muito boa!).